![]() |
Esse é o canal 1, como não tenho foto do 2, Bernardino de Campos, fica esta mesmo. Se alguém tiver, me manda aí, please |
Minha lembrança mais remota no
momento remonta a um dia de chuva, chegando do Centro da cidade de Santos,
canal 2, avenida Bernardino de Campos. Eu, minha mãe e o Renato, meu irmão mais
novo. Talvez o Fábio estivesse junto também. Lembro de descer do ônibus, o 17,
que faz o percurso oposto ao 10, vem do Centro, desce a Bernardino até a praia,
segue até o canal 4 pela avenida da praia, que em Santos muda a cada trecho de
nome, entra na avenida do canal 4 e segue até Afonso Penna e depois a
Conselheiro Nébias, até chegar ao Centro.
Desde os tempos de Porto Alegre,
dia 10 era dia de ir ao Centro, Banco Bradesco, para sacar o dinheiro que o
Flamarion depositava para que a mãe administrasse nossa sobrevivência. Pagar
aluguel,
![]() |
Eu, Beto, Renato (ele não gostava de futebol) Rogério e Fábio, ainda em Porto Alegre, anos 1970 |
contas, comida, nossa, o Flamarion devia depositar uma fortuna. Com
certeza a Sirlei tinha um orçamento apertado e limitadíssimo para sustentar suas
5 crias. Mas dava conta. Tinha que dar... tempos duros... mas a vida era mais
barata e menos consumista. Ah, e menos descartável, bem menos descartável do que é hoje.
Contar isso para o Victor e para o Gui, eles acham
que era a pré pré história, devem imaginar nós saindo das cavernas, com
tacape e arco e flecha para caçar. Não ter internet, celular, whatsapp, bah,
quequeéissopelamordeDeus! Como vocês viviam? Muito bem, obrigado! Comprar
roupa, tênis, uma vez por ano e só usar roupa nova para “sair” (o conceito de
sair era ir para algum evento importante), como na época dos nossos avós (o
velho Laudelino Ávila Silveira e a dona Julieta Cardoso devem ter vivido isso no começo
do século passado) de usar a “roupa boa” para ir à missa.
Ir ao Centro significava passar
nas Americanas e comer o famoso cachorro quente, coisa que não existe mais hoje
em dia, pois as poucas lojas Americanas de rua que sobraram não têm mais
lanchonete. As de shopping, muitas vezes são tão pequenas que não têm espaço
para tal. Deviam lançar uma lanchonete Americanas na praça de alimentação dos
shoppings. E a lanchonete das Americanas deixa saudades. Muitas saudades. Dos
lanches, do ambiente que me lembra a infância e que me traz à tona tantas
coisas. Como podem acabar com aquilo que fez parte da nossa vida? Isso deve ser
o que melhor representa o conceito de morte, morrer aos pouquinhos a partir do
momento que as coisas da tua vivência deixam de existir.
Um breve parênteses aqui, como
será que isso fica na cabeça das pessoas hoje em dia, se tudo morre tão rápido
e tudo é tão superficial? A era da superficialidade. Vários filósofos e
sociólogos, ou as duas coisas, já discorreram sobre a pós-modernidade,
principalmente Bauman, o meu predileto.
Lembro que naquela época eu não
gostava de comer a salada do hot dog,
então comia apenas o pão com salsicha; e adorava! Quando chegamos em Santos, de
mudança definitiva, de mala e cuia, como se diz, o ritual se manteve, Centro,
Banco Bradesco, Americanas, cachorro quente, sem molho, por favor! Que idiota,
a parte mais gostosa do sanduba, cada mania, cada mania, tsc, tsc, tsc. E todo
dia 10 era a mesma coisa. Passava mês e ano e lá estávamos nós, naquele local e
sempre comendo a mesma coisa, Lojas Americanas e cachorro quente sem molho,
seco pra caramba, mas era assim que eu gostava. Depois que cresci um pouco é
que comecei a gostar das coisas mais molhadas.
Era engraçado (não vejo nada de
graça nisso, diria o Guilherme e eu retrucaria que é apenas uma expressão
antiga que eu carrego com o tempo) que em todas as cidades que eu passava era
sempre igual, sempre tinha uma Lojas Brasileiras (vulgo Lobras) ao lado da
Lojas Americanas. Mas nós, programados para receber os lixos dos U.S.A. sempre
preferimos as Americanas. Acho que o nome,
![]() |
Vovó Sirlei, Sirla, Sirloka e os netos mais velhos, Gui e Vitor em sua ultima passagem por Londrina |
inconscientemente remetia a coisas
boas, porque nós tupiniquins no auge de nossa baixo estima e complexo de
inferioridade coletivos, vivíamos reclamando que as coisas no Brasil não funcionavam e não prestavam.
Bastava vir de fora, ser importado (às vezes da Zona Franca de Manaus) para ser
bom.
Naquela época as coisas demoravam
para acontecer. Ano novo, natal, férias escolares, aniversário, o tempo era
outro. Talvez nossa sensação de tempo era outra. Embora as mudanças climáticas
e as alterações produzidas pela mão do homem tenham feito com que a Terra desse
a volta em si mesma mais rápido, o que fez com que o dia ficasse mais curto do
que as 24 horas que estamos habituados (li isso em um livro de RH faz tempo.
Sabia que essa bosta serviria para alguma coisa em um dia), não foi tanto assim
para que a sensação do tempo fosse tão diferente do que de décadas atrás. Mas
hoje parece que as coisas acontecem em uma velocidade absurda. E logo é natal e
logo ano novo de novo e de novo. Vivemos na velocidade da internet, a vida
online é que dita a velocidade e estamos sempre correndo, para fazer nada a
maioria das vezes, mas sempre correndo. Meu amigo Carluxo dizia que queria
chegar logo em casa para ficar mais tempo sem fazer nada. Hoje em dia eu acordo
cedo aos finais de semana e feriado para ficar mais tempo sem fazer nada.
Minha lembrança remonta a um dia
de chuva, como dizia, em que descemos do 17. Lembro que estava com a mãe eu e o
Renato, o Fábio não lembro se estava conosco. Mas como éramos os mais novos,
geralmente andávamos os três com a mãe, que como um canguru nos levava para
onde ia. Eu com 8, 9 anos, o Renato com 6, 7 e o Fábio, dois anos mais velho
que eu, 10, 11. Se bem que nesse dia ele poderia estar no colégio, estudando à
tarde.
Eu andava sempre com a mão
pendurada no braço da Sirlei. O Renato idem. Aquela mãe era grande e forte, protetora,
nos geria além do alimento para o corpo, o espírito, a alma e o carinho. Nunca
foi daquelas mães castradoras, éramos bem livres, exceto quando saía para
trabalhar e não nos deixava descer, pois era e é, acima de tudo, cautelosa. O
receio era de que na sua ausência as coisas poderiam sair do controle. Hoje,
como pai, sei bem o que ela sentia.
Enquanto a Sirloka era
extremamente cautelosa, o pai, o Flamarion (Favo), era um maluco que vivia a vida
louca. Mulheres, putarias e tudo o mais e nunca se contentava em um lugar,
pulava de casa, cidade e estado com uma facilidade. Deve ser o sangue nômade
das tribos do Oriente Médio, nossos ancestrais que corria nas veias. Seu irmão
Luiz era a mesma coisa. Eu mesmo já morei em tantos lugares que penso que sou
um cidadão do mundo, pois não tenho sotaque de porra nenhuma, de gaúcho nada,
de Santos menos ainda e de paranaense, bah, nada. Nem de interior paulista ou
do litoral paranaense. Sou um ser sem sotaque, apatriado, descendente de tribos
nômades do Oriente Médio.
Voltando ao que realmente
interessa e que não é cagar, como diz o Walter Elias, amigo do Victor, numa
dessas vezes em que foi trabalhar, Rogério e Beto provavelmente estavam em seus
primeiros empregos ou na praia, jogando bola, a mãe deixou o Fábio, que era o
mais velho de nós três, cuidando de nós dois e de si próprio. O Fábio sempre
foi politicamente correto, seguia a risca as regras e ordens estipuladas. E não
nos deixava descer. Nessa época morávamos no 123 da Espírito Santo, no
apartamento 23. E podia implorar que o Fábio não nos deixava descer. Da janela do primeiro andar,
onde ficava o apartamento 23, podíamos ver todos nossos amigos brincando e nos
chamando para brincar.
O Renato era tranqüilo. Se
pudesse descer, tudo bem, seria legal, mas se não pudesse, para ele tanto fazia.
Sempre foi um cara tranqüilo, boa praça, evitava criar problemas para si e para
os outros. Sempre foi assim. E tinha eu. Atentado! O capeta no corpo, inquieto
e à margem das regras. Já era punk aos 8 anos. Contestador por natureza, não
aceitava aquela prisão imposta sem motivo. Victor e Gui tiveram a quem puxar,
pois vivem questionando as regras.
No fundo, todos queriam descer,
mas não tinha como fazer isso com o Fábio no comando e com as ordens expressas
da mãe para não descermos. Foi quando me deu aqueles 10 segundos de bobeira...
calma, não pulei do primeiro andar para me juntar aos amigos e jogar bola no
prédio. Não pulei porque me machucaria, com certeza (a cautela da Sirla), mas
tinha algo que podia fazer e não prejudicaria minha estrutura física: jogar
alguma coisa que precisássemos descer para buscar (o aventureiro amalucado
Favo pulsando em minhas veias). E daí, já era, pois não teria como voltar
para a gaiola. Eu era o verdadeiro matador de passarinhos (ecoa na minha mente
o refrão da canção que abre o programa do Rogério Skylab – matador de
passarinho, matador de passarinho). Resolvi jogar os travesseiros. O Fábio,
revoltado, me deu uns petelecos, mas descemos os três e os dois, espertos,
resolveram também ficar, pois qualquer coisa que acontecesse, tinham a quem
culpar. E assim foi a minha vida inteira, eu sendo a ovelha negra da família e
os dois, quando possível, se aproveitando das coisas que eu aprontava. Hum,
safadeeenhos!
Foi numa dessas vezes que
descemos sem autorização da mãe e que devo ter inventado alguma para poder
brincar, mesmo com a proibição dada, que o Renato sofreu um acidente feio e que
me marcou por muito tempo, acho que até hoje, e se fizer uma análise mais
profunda, para o resto dos meus dias, com remorso. Deve ser uma das fontes de
alguma das minhas pirações, das minhas neuroses. A tal esquizofrenia
aclumbática maluco, diagnosticada por Hermes e Renato.
Como já era de se esperar, proibidos
de descer, devo ter insistido ao extremo e aprontado alguma para nos obrigar
poder brincar. Chega até a ser cruel não deixar crianças brincarem, quando
estão de férias. Ao menos naqueles tempos, inocentes tempos. Porque hoje em dia
está bem diferente. O perigo (pode) mora ao lado. Drogas, pedofilia e tantos
outros malefícios da pós-modernidade estão ao acesso de nossas crianças, que a
cautela e o cuidado nunca são demais. Como resultado, criamos pessoas
superprotegidas e que não sabem lidar com a negação e a frustração.
Mas, voltando, como sempre,
consegui com minhas pequenas e inocentes tramóias infantis, descer para brincar
e os dois, Fábio e Renato, desceram na minha cola. Fomos brincar de ‘malha’,
brincadeira idiota daqueles anos, que se tratava de chutar uma bolinha de tênis
ou mesmo uma tampinha de garrafa de refrigerante (aquelas de alumínio, pois
ainda não existiam as garrafas pet) e se passasse por baixo das pernas de
alguém, teria que passar por um corredor polonês.
Porra, aquela pequena circunferência
de alumínio passava por baixo das pernas de qualquer merda, caralho. Não tinha
como não passar. Era só chegar perto e alguém dar um chute certeiro que
passava. Era propicio para desencadear (e descarregar) nossos instintos primitivos.
“Existe profundo no sonho
Uma floresta futurista
Deuses astronautas, em plena nudez
Existe a terra, o fogo, água e o ar
Longe existem chances para o meu amor”
Uma floresta futurista
Deuses astronautas, em plena nudez
Existe a terra, o fogo, água e o ar
Longe existem chances para o meu amor”
E, numa dessas passou por baixo
das pernas do Renato. Eu tive dó, pois era nosso irmãozinho caçula (hoje, o mais alto da família, ainda é o queridinho da família, o caçulinha, o pai da Luizita). Nem bati e
com certeza o Fábio também não o fez, quando passou no corredor polonês; mas a
galera bateu e um babaca, o Jonas (Jôniiii) além de bater pôs o pé de forma que
ele tropeçasse e bateu nas costas dele, com tanta força que o empurrou.
Resultado: bateu a cabeça na quina do pilar, fez um corte grande e muito sangue
jorrando; e corre daqui para lá, nós desesperados, eu chorando com lágrimas de
remorso, copiosamente, em soluços. E a mãe trabalhando, sem saber de nada.
Informações cada vez mais contraditórias, desencontrada nos chegavam a todo
momento. Plástica na cabeça, ficar careca para o resto da vida e coisas piores.
Foi uma das maiores tragédias da minha infância. E eu atazanado, andava para lá
e para cá, remoendo no meu remorso, perdido nas minhas culpas. Com 7, 8 anos de
idade. Não é crueldade demais? Na inocência da infância, sendo crucificado por
um ato tolo de busca da liberdade. Como é cruel nossa sociedade!
Logo à noite ele estava de volta
para casa, depois de passar alguns momentos difíceis na Beneficência
Portuguesa, um hospital que fica na Bernardino de Campos, perto da Rua São
Paulo. E estava bem, graças a Deus!, sendo paparicado por todos, inclusive por
mim. Alguns pontos na cabeça, enfaixada para proteger os pontos.
Mas e aquele dia de chuva, do
começo da história? Descemos do ônibus, era o 17, sentido bairro – praia, eu
segurando o braço da mãe, o Renato idem. O Fábio não lembro se estava junto.
Puxando pela memória, nem o Renato devia estar junto, porque naquela época eu
estudava no Dino Bueno de manhã e os dois no Cleóbulo Amazonas Duarte, no canal
3, em frente ao clube Atlético, à tarde. Por isso eu deveria estar sozinho com
a mãe. Devia ser 1980. Quase certeza de uma memória que não é mais aquelas
coisas, já desgastada com o tempo e pouco confiável.
Chuva fina em Santos, daquelas
que não param nunca e quando começa é por dias a fio. O dia inteiro chuvoso. Santos é assim, quando desembesta a chover,
parece que nunca mais pára. Por volta de três e meia, um pouco mais, um pouco
menos. Descemos do ônibus e esperamos ele passar na nossa frente para
atravessarmos. No início dos anos 1980 haviam poucos carros nas ruas, o
trânsito era menos selvagem. Então começamos a atravessar e eis que aparece um
palhaço, empinando a bike, no meio da rua, da avenida Bernardino de Campos,
canal 2, se mostrando para a namorada, que vinha a pé, logo atrás, com sua mãe.
E o susto que o cara tomou conosco atravessando foi tão grande que chegou a cair
da bike, se ralando e se esborrachando no chão. Levantou com a bike, xingando e
vociferando palavrões, que encontram eco na Sirlei, que devolveu em dobro os
xingamentos, fruto do nervosismo, do susto e do instinto materno em defesa da
prole.
Estranho o que um dia de chuva,
uma canção, uma memória saudosista podem fazer em uma viagem de apenas 10
minutos, do trabalho até em casa. Me deu saudades da Sirloka, de ouvir a voz
dela; saudades do bolinho de chuva que só ela sabe
![]() |
Luiza, Luizita, Fofolona do tio, com a tia Ju e a tia Terê ao fundo |
fazer, que fica uma delícia,
principalmente quando meio cru. Na páscoa vou para Santos para vê-la e a
Fofolona Luizita, minha sobrinha querida. E vou pedir para fazer bolinho, como
chamávamos essa guloseima.
Quatro minutos de canção e um
turbilhão de lembranças e de emoções. A canção que despertou tudo isso? Hold On
To Your Friends. Morrissey e sua poesia romântica e ácida.
Hold on to
your friends
Hold on to your friends
Resist - or move on
Be mad, be rash
Smoke and explode
Sell all of your clothes
Just bear in mind :
Oh, there just might come a time
When you need some friends
Hold on to your friends
Resist - or move on
Be mad, be rash
Smoke and explode
Sell all of your clothes
Just bear in mind :
Oh, there just might come a time
When you need some friends
Devaneios de um dia de chuva.
Apenas isso, devaneios de um dia de chuva e um tempo parado no trânsito já
caótico de Londrina, a pequena Londres. E um boa música rolando e indo direto para a alma.
P.S.: devaneios ocorridos na
quarta feira de cinzas e escrito em seguida, ao chegar em casa, no calor da
emoção, terminado no dia seguinte, na permanência na Unopar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Opine, comente, reclame, grite! Aqui: